O grande encontro
ou: por que Paraty é o cenário perfeito para os Jogos Universitários do Mercado Literário
No começo da tarde de sábado em Paraty, amigas mandaram mensagem no grupo KD VC? (FLIP EDITION) informando que iriam almoçar na praia. Eu estava em um painel no qual tinha apenas um leve interesse, então levantei de bom grado e atravessei a praça e a ponte a caminho da Praia do Pontal. Quando estava quase colocando o pé na areia, recebi a notificação da mudança de plano, “agora vamos naquela pizzaria perto da praça”. Atravessei a ponte e a praça novamente e procurei no mapa e nas ruas a tal da pizzaria. Entrei e encontrei três amigas. Eu já tinha almoçado, mas sentei para fofocar. Logo depois, uma quinta integrante do grupo passou pela porta, e uma sexta e uma sétima. Formamos uma pequena multidão dentro da pizzaria matraqueando até cada uma tomar um rumo diferente.
Durante cinco dias, essa é a rotina minha e de inúmeros outros frequentadores da Festa Literária de Paraty: encontros, acidentais ou não, entre um painel e outro durante o dia ou entre uma festa e outra durante a noite. Cruzamos com conhecidos sentados em um banco da praça, na mesa do bar, comendo doce nos carrinhos, entrando ou saindo de uma casa e, certa vez, testemunhamos o nascimento da amizade entre duas autoras norte-americanas famosas enquanto tomavam caipirinhas na praia.
Segundo a própria Flip, 40 mil pessoas passaram por Paraty entre a quarta e o domingo do evento. Ela não é o maior evento literário do Brasil em número de frequentadores (esse título talvez fique com a Bienal do Livro de São Paulo?), mas com certeza é o que reúne o maior número de autores de prestígio - gringos e brasileiros. E meu hot take é que a Flip não seria o evento que é hoje em dia se não acontecesse em Paraty.
O centro histórico da cidade é formado por uns 12 quarteirões, talvez um pouco mais. É um trecho exclusivo para pedestres, tendo como fronteiras a cidade propriamente dita de um lado (um bloqueio de correntes delimita o acesso dos carros), o canal de outro, o manguezal e, por fim, o mar. Grande parte da programação da Flip acontece nesse quadrilátero, e uma outra parte acontece logo ali do lado, atravessando a ponte.
Em um dia normal de Paraty - e eu sou uma frequentadora de Paraty também em dias normais - o centro fica repleto de mesas em frente aos restaurantes e bares, carrinhos de doces espalhados pelas esquinas e gente caminhando pelas pedras (aqui eu pretendia usar o adjetivo “despreocupadas”, mas quem já pisou em Paraty sabe que não tem como andar de maneira despreocupada nas pedras lisas do centro histórico).
Em um dia de Flip, as mesas e cadeiras continuam nas ruas, assim como os carrinhos de doces. Mas as pessoas circulando entram e saem das casas de maneira frenética, porque são nelas que a magia da programação paralela acontece. Nos dias de Flip, várias casas de Paraty abrem suas portas para receber palestras, oficinas, saraus, sessões de autógrafos e o que mais surgir na cabeça dos curadores de cada programação.
Claro, existe uma programação oficial, aquela que a própria organização da Flip promove. Mas ela ocupa uma parte pequena da cidade, a saber: um auditório fechado, a famosa tenda, onde acontecem as mesas; uma Livraria da Travessa onde também acontecem as sessões de autógrafo dos convidados das mesas já mencionadas; um segundo auditório, agora aberto, onde são transmitidos os painéis da tenda principal para quem não comprou ingresso; uma área educativa para crianças. Esses equipamentos ficam alocados em três espaços livres na praça central, a Praça da Matriz, e um quarto espaço do outro lado da ponte, e a organização reveza esses quatro equipamentos entre esses quatro espaços. O meu layout preferido é quando o telão está exatamente de frente para a praça, mas também gosto quando ele está na quadra lateral, ao lado dos bares, e é possível ver os autores falando enquanto se toma uma Jorge Amado. 10/10.
Mas a graça da Flip, a Festa propriamente dita não está nessa programação. Está no que acontece no resto do centro histórico, nas centenas de atividades pelas casas espalhadas pela cidade. Está nas editoras, empresas e organizações que nos fazem passar o dia andando por aquelas pedras horríveis cruzando ruas alagadas (porque Paraty é uma cidade que sempre alagou com a maré) para assistir a algum painel em ruas que a gente nunca sabe muito bem como chegar. Está nesses momentos mágicos que permitem que a gente cruze com conhecidos correndo a mesma maratona (só que ninguém corre em Paraty para não torcer o pé!).
Eu sei que parece que eu estou romantizando, e talvez eu esteja, mesmo. E não nego que nesse caso o centro histórico funcione como um cercadinho para a intelectualidade brasileira enquanto o resto da cidade acontece em volta, sem o nosso conhecimento, mais ou menos como quando eu viajei com a escola pra lá e a professora nos deu algumas horas livres pelas ruas de Paraty contanto que nós só andássemos por esse mesmo quadrilátero que eu percorro anualmente hoje em dia.
Mas é difícil não romantizar esses cinco dias quando a noite acaba em frente à igreja de Santa Rita, um open bar misterioso de cachaça e uma caixa de som tirada sabe Deus da onde, que chegou pra gente como uma Quermesse na Santa Rita; ou quando uma outra noite termina com dezenas de pessoas dançando ao som de Madonna na rua e a gente conversando sobre assuntos aleatórios; ou quando a gente lotou uma outra rua num fim da tarde para ver Alice Ruiz lendo poemas do Paulo Leminski.
Uma amiga minha disse que a Flip é mágica. Certa manhã, enquanto lia na praça, uma senhora se aproximou dela e ofereceu um ingresso para uma das mesas na tenda principal. Exatamente a mesa que ela mais queria assistir.
E o que faz toda essa magia acontecer é a possibilidade do encontro - e essa possibilidade não acontece por causa da literatura, mas porque ela é celebrada na praça com gente lendo e brincando e conversando; nas ruas sem carro; nas mesas de bar colocadas nessas mesmas ruas; no caminhar claudicante e muitas vezes sem rumo pelas pedras.



