O dia seguinte
Pensamentos soltos sobre sentar em um bar para assistir à Copa do Mundo
Quando aconteceu o primeiro jogo do Brasil na Copa, era o auge do clima junino. Nas ruas as pessoas vestiam xadrez com lencinho verde e amarelo. Uma banquinha em Pinheiros estava tão cheia de pessoas comprando blusinhas que era impossível passar pela calçada. As pessoas com camisa da seleção que nos causavam um momento de desconforto pensando se era um Patriota ou apenas um torcedor inofensivo para a democracia.
Quando voltei da Santa Cecília para o Butantã, estava tão extasiada com tudo que eu vi nas ruas que tentei escrever um texto, mas ele não saiu.
Meus amigos têm opiniões fortes sobre nacionalismo. Eu não tenho, mas não nego que ele tem sua serventia no esporte, especialmente em grandes eventos esportivos. E eu adoro grandes eventos esportivos.
No começo do ano, me vi acordando às seis da manhã de um domingo para ver curling nas Olimpíadas de Inverno. Minha obsessão pela Copa do Mundo me deixou um mês afastada dos cinemas porque os horários dos jogos coincidiam com os horários das sessões, e a frase que eu mais repeti quando me chamavam para rolês nessas últimas semanas foi “precisa ser um lugar com tevê”.
Mas eu entendo que para que isso vire um evento coletivo a gente precise ter a seleção brasileira masculina em campo, não importa quão broxante ela seja.
Se não fossem os jogos do Brasil, a gente não estaria sentada em um bar em uma quarta à noite com um grupo de homens hétero neymarzete gritando com a gente do bar na outra esquina; eu não teria passado por uma menina, no centro de São Paulo, que, assim como eu, não tinha roupa verde ou amarela e escolheu um look 100% azul bic para acompanhar o jogo; eu não teria atravessado, a pé, Higienópolis e Santa Cecília para chegar a um bar na Barra Funda e visto, nesse caminho, as ruas aos poucos sendo tomadas por torcedores paramentados para o jogo das oitavas de final.
Há quem prefira ver os jogos no conforto de casa, sozinho ou com a família. Eu entendo. Mas, pra mim, um jogo da seleção brasileira na Copa é apenas uma desculpa perfeita para termos a cidade no seu melhor.
Tem um trecho do livro The odd woman and the city, da Vivian Gornick, que diz assim: “Most people are in New York because they need evidence - in large quantities - of human expressiveness; and they need it not now and then, but every day. That is what the need. Those who go off to the manageable cities can do without; those who come to New York cannot”.
Eu não sei como esse trecho ficou na tradução (aqui ele saiu pela Todavia com o nome de Uma mulher singular e tradução da Heloisa Jahn), mas eu penso constantemente nesse trecho. Ela está falando de Nova York, mas poderia ser de qualquer outra grande metrópole do mundo, incluindo São Paulo.
Eu sinto esse trecho com cada osso do meu corpo. Para mim, ele é a descrição exata do que é viver em uma cidade assim - não por obrigação, mas por uma necessidade profunda de estar em uma cidade com vários milhões de habitantes. Porque o que você encontra em uma São Paulo, uma Nova York, uma Londres, uma Paris, uma Tóquio, você não encontra em nenhum outro lugar.
Foi essa sensação que eu tive nos dias em que saí de casa para ver os jogos do Brasil, a de que as várias milhões de pessoas em São Paulo estavam vivendo para isso - e o para isso não é necessariamente torcer pela seleção, mas usar esse evento para sentar em uma mesa de bar na calçada, se juntar a estranhos para xingar um jogador ou lamentar um gol perdido, deixar que um desconhecido de pé apoie o copo de cerveja na sua mesa enquanto olha pra TV. No jogo de domingo passado, um motorista parou o ônibus um pouco mais pra trás no sinal para que ele e os passageiros pudessem ver a televisão de um bar. É isso, mas do que o jogo em si, que me leva pra rua em dias de jogo da seleção brasileira.
A seleção ser eliminada não mudou minha relação com a Copa - minha agenda ainda é, em parte, condicionada aos horários dos jogos. Mas eu senti uma tristeza e raiva profundas quando, na segunda de manhã, andei por Pinheiros e a banquinha com camisas do Brasil não estava mais lá. Não importa em que bar eu sente para ver os últimos jogos, nenhum vai ter um clima de euforia e festa tão grande ao meu redor. O hexa não vir é a menor questão - o fim da festa nas ruas é o que a seleção brasileira tirou de mim.
(Senti a necessidade de fazer um disclaimer: eu sei que o futebol de clubes desperta tanta (ou mais!!!) paixão que a seleção brasileira e reúne tantas (ou mais!!!) pessoas nas ruas em dias de jogos, especialmente os decisivos. Mas apesar de acompanhar esse fenômeno com muito interesse e carinho, eu não sou pessoalmente investida em nenhum time, então fico à margem dele)

