Mulheres que caminham
Uma resenha de Flâneuse
Durante a pandemia eu vivia um drama pessoal que era independente ao Covid-19, mas foi agravado por ele. Um ano antes eu havia torcido os dois pés e em fevereiro de 2020 finalmente operei o direito - que a essa altura já estava em uma situação deplorável. Conforme os meus primeiros dias de recuperação passavam, as notícias sobre a proximidade do vírus aumentavam. Quando eu saí pela primeira vez para algo que não era consulta com meu ortopedista, já tínhamos registrado os primeiros casos no país. Com isso, o que era pra ser o fim da minha própria quarentena virou meses em casa com um pé em eterna recuperação.
Essa não foi a primeira vez que meu pé me trazia problemas. Pelo contrário - se tenho uma certeza na na minha vida é que uma hora ou outra eu vou torcer o pé. Inclusive esse texto está sendo escrito enquanto eu bato a meta de 40 sessões de fisioterapia para lidar com dois ligamentos rompidos. Não é uma questão de se, mas de quando.
Foi alguém que reparou, anos atrás, que eu lia um livro sobre caminhar enquanto fazia choquinho no pé. A ironia. O livro era Walkscapes, do Francesco Carreri (tradução de Frederico Bonaldo), e eu não acho que minha escolha tinha a ver, pelo menos de maneira consciente, com a situação em que eu me encontrava, mas faz sentido: eu talvez já tenha falado sobre isso aqui que sou obcecada em caminhar. Sabe aquele meme da pessoa que você nunca pode confiar quando diz “dá pra ir andando” porque pode ser 50 metros ou 10 quilômetros? Euzinha. E se eu estava com a minha mobilidade restrita, me parece natural que eu pensasse mais e mais na nossa relação com o caminhar.
Aconteceu de novo em 2019,quando eu estava com os dois pés recém torcidos e li Flâneuse, da Lauren Elkin, pela primeira vez, e novamente esse ano, quando decidi relê-lo, agora na versão publicada pela Fósforo e traduzida pela Denise Bottmann.
Eu tenho uma relação ambígua com esse livro. Ele é, sem sombras de dúvida, um dos meus preferidos da vida, e o primeiro e último capítulos, uma investigação mais teórica sobre o que ela vai chamar de Flâneuserie, ocupam um lugar permanente na minha mente. Por outro lado, em alguns momentos eu esperava… mais?
Em Flâneuse, subtítulo “Mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres”, Elkin investiga mulheres dos séculos XIX e XX que caminharam e ocuparam as ruas de cidades importantes. Seu ponto de partida é o flâneur e a ideia de que as mulheres do século XIX jamais poderiam deambular pelas ruas de Paris como os homens faziam. Elkin rechaça essa ideia. Para ela, a falta de relatos de mulheres burguesas vagueando pelas ruas é mais uma prova de que a narrativa de caminhantes sempre foi escrita por homens - e, portanto, protagonizada por homens - e menos um retrato fiel de quem ocupava as ruas. Para provar seu argumento, Elkin apresenta uma série de nomes e se debruça sobre deles para analisar como escritoras e artistas há anos usam as ruas em suas obras.
Ela intercala essas análises com relatos de sua própria experiência enquanto mulher na cidade, o que na maioria das vezes enriquece o livro (por exemplo: as experiências dela em Paris tanto como jovem intercambista quanto como moradora). Agnés Varda, Sophie Calle e Virginia Woolf são as estrelas do livro, mas os trechos sobre Jean Rhys são esquecíveis e não sei até onde George Sand era interessante para além da imagem de mulher boêmia que usava roupas masculinas (curiosamente, foi esse capítulo que me fez ler o livro organizado por Paula Carvalho e traduzido por Mariana Delfini sobre/de Isabelle Eberhardt, uma personagem que eu acho beeeem mais complexa e interessante que George Sand).
Assim como o trecho em Tóquio. Apesar de terminar o capítulo com um “para surpresa de todo mundo, eu amo essa cidade”, Lauren dedica páginas e páginas a gongar a cidade - ela mesma, em certo momento, reconhece que a relação que ela constrói com a capital do Japão é indissociável ao relacionamento horrível que a levou a morar lá, o que justifica o rancor, mas não a escolha de registrá-lo no livro. Mesmo a tentativa de comparar essa situação com a de Charlotte, de Encontros e Desencontros, me parece forçada.
Mas é claro que o que faz Flâneuse ser um livro tão especial para mim não são as fahas.
Lauren Elkin é eloquente em suas críticas aos pensadores do caminhar, tanto aos flâneur do século XIX quanto aos seus herdeiros situacionistas. Um dos pontos fortes do livro é exatamente sua recusa em aceitar que mulheres não podem ser invisíveis - um dos pré-requisitos para a atividade de observar as multidões - por serem objetificadas quando estão em espaço público. Elkin não nega essa premissa, mas usa Varda e Sophie Calle como exemplo de mulheres que subverteram essa lógica. Ela se aprofunda na própria foto que ilustra a edição brasileira: uma mulher andando por Florença enquanto é assediada por um grupo de homens. Tanto a fotografada quanto a fotógrafa apresentam uma versão diferente, a de duas jovens se divertindo em uma cidade estrangeira.
“A mulher na rua é uma figura instável, é claro, como o famoso desenho do pato-coelho que demonstra as ambiguidades inerentes à percepção. Ela é uma flâneuse despreocupada ou o objeto do olhar masculino, é um coelho ou um pato? A leitura mais interessante está no meio-termo, naquela área de tensão e atrito onde nossa provocação desafia as expectativas alheias. (...) Aquele trote pela cidade, a brincadeira e a diversão citada por Craig e Orkin [fotógrafa e fotografada da imagem] mostram que podemos refazer o espaço”, escreve Elkin.
O próprio título do livro é uma reescrita do passado e do presente. Logo no comecinho do livro, antes de desfilar uma lista de mulheres que caminham e observam as ruas, Lauren Elkin diz que a palavra flâneuse era quase imaginária, sem existir na vida real porque, vejam só!!!, as mulheres não flanam na rua, e vai além: em alguns dicionários ela era definida “acreditem ou não, como um tipo de espreguiçadeira”. Então ela continua com um dos trechos que mais alugou um triplec na minha mente (meu livro tem inúmeros !!!!!! na margem desse trecho): “Será que é uma piada? O único tipo de ociosidade curiosa a que se entrega uma mulher é ficar estendida numa cadeira?”


