Lugares de afeto
O livro Copo Vazio a construção de uma cartografia pessoal em São Paulo
Quando eu estava no ensino médio e morava na zona sul de São Paulo, tinha uma tradição quase diária, ou pelo menos semanal, com o meu melhor amigo/crushzinho da época: a gente saía da escola, na boca do metrô Jabaquara, e ia caminhando pela avenida Engenheiro Arruda de Armando Pereira até chegar na estação Conceição. De lá ele subia uma rua para o prédio onde morava com a mãe e eu pegava o ônibus para terminar o curto trajeto até a minha casa.
Essa tradição durou alguns meses do nosso terceiro ano. Pouco depois de me formar, me mudei para outra cidade e parei de frequentar os bairros da Zona Sul por onde andei na minha infância e adolescência. Mas ainda hoje, 20 anos depois, se eu passo por essa avenida automaticamente me lembro do quilômetro de caminhada que a gente cruzava juntos - que poderia ser vencido por metrô e ônibus, mas caminhando a gente retardava a despedida um pouco mais.
Lembrei dessa história enquanto falava sobre o livro Copo Vazio, da Natalia Timerman. A história gira em torno de um ghosting que a personagem Mirela sofre de um ficante, o Pedro, e como ela surta com isso, mas a discussão era menos sobre como Mirela se humilha por ele nos meses seguintes ao sumiço e mais sobre a forma como ela se desloca pela cidade de São Paulo - com ou sem o Pedro.
Mirela é arquiteta e moradora de Higienópolis. Normalmente faz o percurso casa-trabalho de carro, embora no livro tenha pelo menos uma menção sobre ela pedalar até o Pacaembu. Sua vida social acontecesse em cerca de meia dúzia de quarteirões entre o bairro em que mora e a avenida Paulista, e esses são percursos que ela faz basicamente a pé. Ela frequenta os bares da Augusta e o cinema do Conjunto Nacional. Sabemos disso porque a cartografia que ela constrói no livro é detalhada. Ela sobe a Angélica, atravessa a Consolação, caminha pela Matias Aires. Dirige pela Sergipe, desce a Itambé, vira na Major Sertório até a esquina com a Dr. Vila Nova. Natalia Timerman cartografa de maneira muito precisa o relacionamento da Mirela com o Pedro na cidade. E, sem saber, cartografa também o meu relacionamento atual com São Paulo, porque essas são ruas e avenidas que eu percorro constantemente na minha vida adulta.
Enquanto falávamos sobre Copo Vazio, alguém chamou a atenção para essas referências geográficas da Mirela e do Pedro. “Espaço planejado, espaço construído, espaço vivido”, foi o que eu anotei, junto com “projeção simbólica subjetiva do espaço” e “cartografia íntima”. O ponto dessas anotações todas era o mesmo: reforçar como a gente constrói e destrói e constrói novamente a nossa relação com a cidade também de acordo com o que vivemos a cada esquina ou rua, num palimpsesto íntimo.
(A certa altura de Copo Vazio, Timerman escreve: “Mirela não tinha como saber que, depois, sempre que descesse aquela rua, sempre que pisasse aquela mesma calçada, buscaria aquele momento, procuraria no chão, no ar, vestígios de Pedro, vestígios de estarem juntos, ou, em si mesma, de quem ela era com ele”, e em outro ponto “foi aqui, nesta esquina, Itambé com avenida Higienópolis, que se viram pela última vez”)
Eu não estou falando sobre como o ambiente nos molda. Quem eu sou está intrinsecamente ligado aos lugares que eu frequento, é claro. Se eu fosse uma frequentadora da Vila Olímpia em vez do Centro, provavelmente seria uma pessoa totalmente diferente.
Mas estou falando de outra coisa. De quando, por exemplo, eu me senti traída pelo Universo ao descobrir que tem uma loja abrindo em um espaço vazio do Conjunto Nacional. Foi em frente a espaço fechado, às dez da noite de um domingo, que eu esperei a chuva passar depois de sair da farmácia ao final de um date acidental de três horas e dez quilômetros. Aquele portão fechado permanentemente era um lembrete agridoce daquele momento. Agora, com a nova loja de bijuterias, o marco geográfico desse momento ficou menos concreto, e quando aquela farmácia virar outra coisa, ele vai ser apenas uma lembrança minha.
Também estou falando de lembrar, toda vez que passo em certa esquina da Santa Cecília, de quando encontrei, sem querer, uma amiga querida no meio de um bloco de Carnaval e nos sentamos no bar para beber cerveja; ou de quando terminei a noite no Bullguer da Avenida Ipiranga porque era o único lugar aberto no centro às 3 da manhã de uma quinta-feira.
Um mapa particular meu, em que os pontos de referência são momentos de afeto que vivi pela cidade.
Outro dia, enquanto eu subia a rua dos Pinheiros, notei que a esquina com a Joaquim Antunes estava ocupada. Pela janela que existe há pelo menos 12 anos, vi que mantiveram algumas das ilustrações da parede de quando ali tinha uma das hamburguerias mais badaladas da cidade e onde eu comia vez ou outra, sempre vendo o Paulo Yoller chefiando a cozinha. Nem a hamburgueria e nem o Paulo existem mais, mas alguém naquele novo restaurante quis preservar essa memória, a minha memória, mantendo um desenho de porco na parede.
A gente constrói, destrói e constrói novamente a nossa relação com a cidade a partir das lembranças que vivemos, mas ao mesmo tempo a cidade constrói, destrói e constrói novamente essas mesmas lembranças. Um pouquinho mais pra frente daquela esquina da rua dos Pinheiros estava a agência em que eu trabalhei, e, do outro lado da rua, a loja de roupa de uma amiga que, sem saber, me ajudou a construir a relação que eu tenho hoje com a moda. Ambas as casas viraram prédios, um retrato da especulação imobiliária desenfreada no bairro que, uma hora ou outra, vai esvaziá-lo de pessoas.
Dois anos atrás, fui com uma amiga ao Rio e quis ir à Praia Vermelha, minha praia preferida na cidade. Ela também é a praia de um momento marcante da minha vida: quando minha irmã tinha uns quatro anos, pegou uma intoxicação violenta depois de passarmos a tarde nela. Minha mãe cruzou a Dutra em 4 horas e minha irmã ficou alguns dias internada. Passamos anos sem frequentar a bendita praia com certo trauma daquele janeiro.
Não lembro se eu tinha pisado de novo na Praia Vermelha quando eu e minha amiga saímos de Botafogo em direção à Urca. Lembro, porém, da caminhada - bonita em alguns pontos, hostil ao pedestre em vários outros. Lembro de ver um homem com um pitbull e comentar sobre a quantidade de pitbulls que tínhamos visto na Zona Sul. Lembro da areia, do sol, de nadar no mar e da vista da praia mais bonita do Rio de Janeiro. E agora quando penso na Praia Vermelha, sinto uma nova camada de lembrança construída. Como um palimpsesto.
Em um dos últimos capítulos de Copo Vazio, Mirela sai da casa de Rui, seu futuro marido, e passa por uma praça, talvez o Parque Buenos Aires, onde estão montando uma exposição de fotos. Ela se lembra de uma outra exposição em outra praça perto dali - a Rotary, quase na esquina da casa de Pedro. É esse o momento do livro em que Pedro começa a virar apenas uma lembrança na mente de Mirela, não uma obsessão. A exposição no Parque Buenos Aires, uma nova memória geográfica. Um novo marco em sua cartografia pessoal.



Muito bom. Quero ler esse livro. Também tenho momentos e lugares na cidade que são só meus. Quando há mudanças, meu coração dá uma apertadinha
Beijos