Contando os passos
ou porque a obsessão com os 10 mil passos é culpa da carrocracia
Eu não sei se foi a popularização dos smart watches ou o boom da cultura fitness, mas de uns tempos pra cá eu parece que todo mundo passou a contar os passos de uma maneira obsessiva. A prática fica mais explícita quando alguém compartilha no Instagram, junto com as fotos de uma viagem para a Europa, um print mostrando que andou 20 mil passos e por isso precisa de férias das férias. Mas a métrica de passos que me chama a atenção de verdade é outra - a cotidiana, a que ganha status fitness, a que tem o número mágico de 10 mil.
Dez mil passos diários, segundo dizem, é o necessário para que uma pessoa seja saudável, reduza os riscos de diabetes, acidentes cardiovasculares e sei lá mais o quê. Uma pessoa que anda dez mil passos por dia é uma pessoa ativa. Mas atingir essa meta não é fácil. É preciso esforço, dedicação e uma caminhada na esteira. Esse é o preço para não ser sedentária.
Como muitas pessoas que passam horas demais no celular, eu gosto de uma boa métrica que me diz que eu estou vivendo minha vida da maneira correta. Frequentemente consulto meu desafio de leitura do Goodreads para me certificar que estou dentro meta (não estou), sinto o tapinha nas costas do Letterboxd quando ele celebra os marcos de 50, 100, 150 filmes assistidos em um ano e fico satisfeita comigo mesma quando meu calendário do Gymrats está preenchido com várias bolinhas representando o dia em que eu me exercitei.
Então é claro que ativar meu Google Fit para seguir meus passos (meio que literalmente) era só uma questão de tempo.
Mas confesso que eu tinha um objetivo secundário quando decidi aderir à ciência não tão exata da contagem de passos: eu queria provar (para ninguém além de mim mesma) que o tal número mágico de passos diários não era assim tão difícil de conquistar quando sua vida não gira em torno do carro.
(A métrica do caminhar não é algo novo. Reza a lenda que Leonardo da Vinci foi a primeira pessoa a desenvolver um pedômetro - que naquela época consistia em um dispositivo mecânico preso entre a cintura e a perna que contabilizava o movimento da passada, feito principalmente para medir distâncias. Muitas outras pessoas desenvolveram seus próprios dispositivos ao longo dos séculos. Nos anos de 1960, uma empresa japonesa iniciou uma campanha de marketing extremamente bem sucedida contra a obesidade e a favor da venda em massa de pedômetros: os 10 mil passos, um número tirado do cu com zero embasamento científico à época. A campanha deu tão certo que ainda hoje pipocam pesquisas (agora sérias!!!) se perguntando se realmente é necessário andarmos 10 mil passos por dia para sermos saudáveis. A resposta mais comum é que depende de muitas coisas, mas 7.500 também pode ser um número desejável. A diretriz oficial da OMS, porém, é dada em minutos, não em passos.)
Talvez aqui caiba um outro adendo de que caminhar é, sempre que possível, a minha primeira opção de transporte. Em outros tempos eu atravessava a Paulista de manhã, antes do trabalho, para escapar da lotação da baldeação entre as linhas amarela e verde do metrô e, no fim do expediente, repetia o trajeto para não pegar a fila interminável da catraca. Anos depois, saía do escritório na Cerro Corá e atravessa a Lapa (e o rio Pinheiros) para chegar no Butantã e pegar meu ônibus intermunicipal, um trajeto quase diário de 4,5 km. Em ambas as situações eu tinha outras opções de transporte, mas elas significavam espera, lotação e um caminho sem muitas surpresas e possíveis desvios. Resumindo: caminhar era mais legal que usar o transporte público.
Embora eu seja uma defensora ferrenha do home office, reconheço que ele tira um pouco a obrigatoriedade de sair de casa todos os dias. Isso, para alguém empenhada em completar a meta dos 10 mil passos diários, é um obstáculo. Além disso, a oferta mais abundante de carros por aplicativo torna convidativo cobrir pequenas distâncias usando um transporte individual. Ser sedentária é mais fácil do que nunca.
Mas aí eu me lembro que caminhar tem uma clara vantagem sobre outros modais de transporte (a não ser, é claro, a bicicleta, mas diferente do que diz o ditado popular, eu desaprendi a pedalar anos atrás): a possibilidade de mudar de ideia. Claro, você pode decidir descer do ônibus em outro ponto ou sair em outra estação do metrô, e com um carro você pode desviar seu caminho, mas a logística é sempre mais complicada do que simplesmente andar para um outro lado.
A pé, eu saio da fisioterapia e decido se vou ou não comprar um chá mate no caminho ou passar no mercado. Eu posso decidir passar na Kalunga depois de um curso e, enquanto caminho, tomar a decisão de atravessar a rua para jantar no restaurante mexicano que eu gosto. Posso transformar uma ida ao cabeleireiro em uma longa caminhada por Pinheiros atrás de pão, queijo e outras coisas. Posso completar os 10 mil passos do meu Google Fit sem que para isso eu precise pegar o carro para andar na esteira da academia. Eu posso simplesmente… andar.
Apesar de a ciência ainda divergir sobre a quantidade diária de passos para que uma pessoa seja considerada ativa, e de sabermos que 10 mil foi um número jogado a esmo para uma campanha de marketing, estudos comprovam o que parece óbvio: viver em cidades caminháveis promove um aumento de até 1.100 passos por dia, muitos deles feitos em um ritmo moderado (para alegria da OMS).
São Paulo não é um exemplo de caminhabilidade, mas tem seus momentos, especialmente na região central. Há cidades piores, qualquer pessoa que já pisou nos EUA não tão profundo ou na Barra da Tijuca pode atestar isso. E como alguém que passou anos tendo que pegar o carro para comprar pão na padaria, brincar de andar 10 mil passos, mesmo que pela chacota com o rodoviarismo, me faz lembrar o quanto é prazeroso realizar tarefas cotidianas andando.

